*** Vida de Maria *** Meu nome é Maria Amélia – tenho 62 anos

Novidade

E não tenho queixa da minha vida. A única coisa que me deixa triste é esta doença que eu tenho agora e que não gosto nem de falar o nome; a não ser por isso, sempre fui muito feliz. Esta semana o tratamento está sendo de dois em dois dias, antes, era todos os dias. Fico muito enjoada depois de sair daqui do hospital e também sinto muita fraqueza, não dá vontade de fazer nada, mas, tem a comida do Arnaldo que eu não posso deixar de fazer de jeito nenhum.

Arnaldo é meu marido, estamos casados há mais de quarenta anos, e ele só come se eu fizer a comida dele. No mês passado, eu disse pra ele que a gente podia ter uma ajudante, uma pessoa para pelo menos lavar a roupa, mas ele não quer. Eu entendo porque, coitado, a comida dele tem que ter pouca gordura e pouco sal, e essas meninas de hoje em dia só sabem cozinhar do jeito que elas querem.

Eu fico contente do Arnaldo gostar tanto da minha comida, isso é uma coisa que me deixa feliz... não só isso, ele também gosta da forma como eu passo as camisas dele. Ele só gosta de camisa muito bem passada e por isso eu prefiro eu mesma passar. Uma vez ele pegou uma camisa no armário e tinha um vinco no colarinho, justo no colarinho! Ele ficou muito chateado, coitado, porque teve que esperar eu esquentar o ferro e passar tudo novamente.

Meu marido é muito bom, acredita que nesse dia ele vestiu a camisa e não disse nada? Pois, foi, não disse nadica de nada, não reclamou, não bateu a porta... às vezes ele bate a porta quando fica com raiva, mas é raro isso acontecer. Eu não posso reclamar porque eu tive uma amiga que o marido dela uma vez chegou a quebrar uma porta de vidro com um soco. O Arnaldo nunca chegou a fazer isso. Eu tenho muita sorte de ter me casado com alguém como ele.  

Lá em casa, aliás, o Arnaldo nunca quebrou nada. Tem dias em que eu vejo que ele até tem vontade, mas ele se controla. Meu marido é um homem bom e controlado.

A minha irmã não pensa assim. Ela é mais nova, sabe? Não entende direito as coisas da vida. Ela me disse uma vez que se fosse ela, não ficaria fazendo o papel da empregada da casa, lavando, passando e cozinhando para o marido.

A mulher tem que saber se comportar, a verdade é essa, senão acaba justamente como a minha irmã, sozinha. Tenho certeza que é por essas e outras que o casamento dela não deu certo. O meu casamento, este continua de pé.

Quarenta anos e nós só tivemos uma briga feia, quando o Arnaldo chegou a sair de casa e foi morar com uma outra mulher (sinal da cruz), mas isso passou. Depois de uns quatro meses ele voltou arrependido e isso bastou para eu ter certeza de que o amor da vida dele sou eu. Minha irmã tentou me envenenar contra ele, chegou até a dizer que conversou com a tal fulana e ela disse que quem quis se separar foi ela, que chegou até a colocar um par de chifres na cabeça dele. Só que depois o Arnaldo me contou tudo e não foi nada disso. Foi ele quem finalmente descobriu que eu era a mulher da vida dele e por isso dispensou a fulana.

Não sei porque a minha irmã faz esse tipo de coisa, acho que ela queria que eu fosse igual a ela, separada do marido. Coitada, eu até entendo a solidão que ela deve sentir, sozinha, sem um homem dentro de casa.

Lembro como se fosse hoje o dia em que o Arnaldo me pediu em casamento:

– Maria Amélia, você é a moça mais linda e mais pura que eu conheço. Tenho certeza que você será só minha para sempre! O meu bibelô, a bonequinha de louça que vai enfeitar o meu lar para sempre. É por isso que eu pergunto: você quer se casar comigo?

Eu nunca tinha ouvido uma coisa tão bonita em toda a vida e por isso aceitei, na hora:

– Ai Arnaldo, sim, claro que sim!

Nós nunca havíamos ultrapassado o sinal no nosso namoro, mas, naquela noite, eu deixei que ele pusesse a mão embaixo da minha calcinha. Eu estava com muito medo, muito nervosa, no entanto eu “era a noiva dele”, não podia deixar de satisfazer o Arnaldo, pelo menos um pouco. O pior é que eu acabei gostando daquele toque, e quase morri de vergonha por isso depois.

Depois desse dia ele mudou comigo, ficava nervoso e sem um pingo de paciência e a gente só acertou tudo quando ele confessou pra mim que não esperava que eu fosse deixar ele tomar liberdades comigo tão facilmente. Coitado, ele ficou inseguro, ficou com medo de que eu já tivesse permitido que outros rapazes tivessem feito a mesma coisa.

É claro que eu jurei que não, chorei muito, e cheguei a me oferecer para ele, para ele ter certeza da minha virgindade e da minha pureza.

Arnaldo é muito bom, sempre foi, tanto é que naquela noite a gente disse para a minha mãe que ia numa festa na casa de uma amiga, mas a gente foi mesmo foi para um motel.

Arnaldo me examinou, acredita, como se fosse um médico, até que teve certeza de que eu havia falado a verdade. Eu era intacta. Depois a gente fez “um pouco” de sexo, claro que não tudo, mas ele pediu para me penetrar de uma outra forma. É claro que eu não estava costumada com aquilo e não foi nada bom, mas aceitei, afinal de contas, eu era noiva dele e uma noiva tem sempre tem suas obrigações. Não chega a ser como uma esposa, mas tem também.

Depois nós nos casamos e eu graças a Deus não tive do que reclamar:

–  Minha esposa, você honrou o branco do vestido de noiva que está usando –  lembro-me que ele disse todo bobo no meu ouvido durante a valsa dos recém casados.

Penso que nesses anos todos eu fiz de tudo justamente para isso, honrar o meu papel de esposa e o nome do Arnaldo que eu carrego.  

Nossa vida sempre foi tranquila. Tivemos duas filhas e um rapaz. As meninas são formadas, não da forma que o Arnaldo queria, porque ele queria que elas fossem médicas ou advogadas, no entanto, as duas preferiram ser funcionárias públicas. Já o rapaz, este sim formou-se médico e encheu o pai de orgulho.

Os nossos três filhos são casados e vêm muito pouco aqui em casa, isso deixa o pai muito triste. É por isso que eu não gosto de chateá-lo. Não quero acabar com o sono dele quando estou vomitando devido ao meu tratamento. Falo para ele sair, ir para o escritório ou ver os amigos, eu dou conta de me cuidar sozinha.

Descobri como enfrentar este problema do mal-estar. Assim que eu chego em casa, corro e faço logo o almoço: assim, quando o enjoo chega, já estou com mais da metade do almoço encaminhado.

Outro dia a comida não ficou muito boa e então o Arnaldo ficou muito chateado. Ele disse que entendia, mas que eu evitasse que aquele erro se repetisse. É por isso que eu prefiro fazer logo o almoço e lavar pelo menos a louça, só depois eu vou para o quartinho dos fundos e me deito. Não quero que a colcha da nossa cama de casal fique cheirando mal.

Semana passada, até encho os olhos de lágrimas, acredita que ele mesmo lavou o banheiro? Tinha ficado um cheiro forte, coitado, ele não tem culpa, sei que o erro foi meu. Agora eu evito usar o banheiro do nosso quarto e uso o da área de serviço. Mesmo assim eu jogo água e depois pinho sol, para não ficar nenhum cheiro.

–  Querida, vamos, é a sua vez!

– Eu? Já? Nossa, Margarida, hoje a químio vai começar mais cedo. Vai dar tempo de sobra de fazer o almoço...

– Como sua enfermeira, aconselho que descanse quando chegar em casa, minha querida.

– Margarida, é justamente isso que eu ia dizer para ela quando você chegou. Também faço químio e quando eu chego em casa, não faço nada, só descanso.

– Ah, vocês duas não entendem, Arnaldo precisa que eu cuide dele, ele não dá conta de fazer nada... coitado.

  

*** Vida de Maria *** pretende contar momentos da vida de muitas Marias.

Este trabalho foi pensado com muito carinho, espero que gostem!

Abraço, ótima semana, Leca Haine

   

E aí, quer continuar esta história? Opine mais abaixo nos comentários e diga o que acha que deveria acontecer depois. Quem sabe a Maria Amélia não abre os olhos e muda de comportamento?