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Leia aqui o primeiro capítulo do livro “Quem vê cara não vê Ansiedade”

nestenataldeemoçãodepresente.pequeno “Quem vê cara não vê Ansiedade” – baseado em fatos reais.

Gênero: reflexão

Autora: Leca Haine

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FILHO

…“Antes, eu só bebia cerveja, mas o efeito passava muito rápido e pra ficar livre do túnel escuro que me envolvia eu precisava de baldes do líquido dourado”…

 

O despertador tocou há um tempão, mas eu não consigo me levantar. Minha cabeça está oca, vazia, e ao mesmo tempo lotada com maus pensamentos que me acompanham há muito tempo.

As outras pessoas não entendem, principalmente a minha mãe, porque eu não vejo razão alguma para levantar e ir pro colégio. Na verdade, eu sei que ir ao colégio é importante, aprender é importante e é o caminho para se ter um trabalho futuramente, mas eu simplesmente não consigo pensar nisso como algo que possa fazer parte da minha vida.

Vida, aliás, é algo que eu não tenho há muito tempo e acredito que jamais terei novamente. Antes, quando eu era garoto, não pensava muito em como seria a minha vida. Às vezes queria ter uma namorada, ter um carro, mas era uma coisa tão distante que eu simplesmente não me preocupava. Apenas seguia o meu caminho de ir e vir para o colégio, aproveitar as férias da escola, ganhar brinquedos e games… era bom assim. Dava fome, eu comia, dava sono, eu dormia.

Que pena que hoje não é mais assim. Dá fome e dá sono e eu não consigo comer porque não tenho vontade.  Não bate bem dentro de mim. Aliás, nada bate bem dentro de mim. Eu não pertenço a esse mundo e nunca tinha percebido isso na infância, o que ficou bem diferente de uns tempos pra cá. Minha mãe fecha a cara e diz que eu não quero nada com nada. Ela não diz, mas sei que me acha um vagabundo, e é isso o que eu sou mesmo. Acredito que sempre fui assim, um vagabundo, imprestável, ela é que não percebia porque ficava fazendo planos pra minha vida. Falava da universidade que um dia eu ia fazer, do quanto ficaria feliz com a minha formatura e dos netos que um dia iria ter em casa.

Coitada! Mal sabe ela que isso nunca vai acontecer. Nem sei se é porque eu não quero. Eu digo a ela que é por isso, que é porque eu não quero, mas na verdade é porque eu sei que isso nunca irá acontecer. Então, eu corto logo o barato dela, pra ela não ficar sonhando com uma vida que eu nunca terei. Aliás, é um direito meu não ter vida, não ter sonho e nem nada. Eu só quero paz, e isso eu acho que arranjei.

Conheci uns Brothers aí na night que me ensinaram o caminho das pedras.  Antes, eu só bebia cerveja, mas o efeito passava muito rápido e pra ficar livre do túnel escuro que me envolvia eu precisava de baldes do líquido dourado. Demorou um tempo, mas acabei por me encontrar nos destilados. São mais fortes e mais baratos e o barato, se é que se pode chamar assim, dura muito mais. O ruim é o peso da culpa no dia seguinte. Vontade de matar, de morrer, de tudo junto.

Minha mãe não sabe ao certo tudo o que eu uso. Para esquecer a minha angústia, ela sabe que eu bebo, mas não imagina o quanto. Normalmente, quando eu chego em casa ela já está dormindo. Ela é professora e trabalha cedo no dia seguinte. Ela trabalha em três turnos e se sente muito culpada pelo meu jeito de ser. Eu sei que ela queria um outro filho, bonzinho, educado e cheiroso. O contrário de mim, que sou totalmente imprestável.

Não se assustem! É isso que eu sou mesmo. Minha mãe não gosta de ouvir isso. Mas eu sou mau. Quer saber? Eu não tenho pena dela, aliás, nem da minha mãe, nem da minha avó e nem do meu pai que vive longe daqui. Meus pais são separados e nas férias o meu pai disse pra eu ir ficar com ele. Mas ele casou com uma mulher muito chata, que fica cobrando limpeza o tempo todo. Se você come um sanduiche, tem que lavar o prato. Se você usa o banheiro, tem que vigiar pra não pingar. Eu odeio isso. Odeio a forma como ela me olha quando entra no quarto que eu ocupo quando estou com eles.

Quarto, aliás, é uma questão complicada porque eu não gostaria que tivesse janela. Detesto a luz do dia, detesto gente conversando e mais ainda rindo. Queria que todo mundo sumisse, queria que todo mundo vivesse no mesmo buraco escuro que eu e a gente ficasse simplesmente calado o tempo todo. Infelizmente, não é bem assim. As pessoas riem, brincam, vivem e se divertem. Eu vejo tudo isso de longe, é como se eu estivesse inserido num filme mudo preto e branco e em câmera lenta e as pessoas estivessem vivendo num filme em alta definição, colorido e 3D. Um filme cheio de ação e aventura, e o meu filme, vazio e cheio de dor. Talvez seja essa a dor da alma que os mais velhos dizem.

Não dá vontade de agir, só assistir, até que me canso e me tranco no meu quarto, onde fica o meu mundo. Às vezes, até o meu quarto, que é considerado pequeno para os padrões de um apartamento classe média, é grande demais para mim. É muita coisa pra dar conta e tudo o que eu quero é não dar conta de nada.

É por isso que nem gosto que me deem coisas. Odeio ganhar roupas que não quero usar e nem sapatos que terei que calçar. Quer me agradar? Me dê uma garrafa de uma aguardente bem forte e barata. Vocês não imaginam o quanto de camisetas de marca eu já ganhei nos aniversários, quando tudo o que eu queria era uma única garrafa cheia.

O pior é que como tudo tem começo e fim, beber também não faz mais o efeito desejado. No início, enquanto tava bêbado e recuperando da bebedeira, era razoável porque eu me esquecia do buraco escuro, pelo menos parcialmente.   Hoje em dia, é preciso um super mix de bebida e drogas.

Vocês devem estar se perguntando como eu arranjo dinheiro pra tudo isso. É que vocês são acostumados com conforto. Não conhecem o submundo do desespero e da ilusão. Esse é um lugar que só quem iniciou a descida, ao poço eu quero dizer, é capaz de relatar porque conhece bem os detalhes.

É um lugar onde não existe amizade e nem inimizade porque não existe essa coisa de sentimento e muito menos de emoção. Quando a gente sente alguma emoção, é sufocada porque a gente não consegue botar pra fora. Emoção é para os vivos tidos como “normais”, não para os mortos que estão no escuro. Isso acontece com as pessoas como eu, que respiram, comem de vez em quando, dormem de vez em quando, mas não vivem. Vegetam. São completamente invisíveis.

Conheço uns chegados aí que ficam na rua e quando um parente ou um conhecido passa por eles, não precisam se esconder. As pessoas das ruas não precisam se esconder de ninguém porque ninguém olha pra elas. De certa forma, eu invejo isso. Sei que um dia vai acontecer comigo também. Sei que um dia a minha mãe vai se cansar de mim, e é lá que eu irei ficar, na rua, pelo menos por uns tempos. Depois, acredito que vou ser morto, ou por dívidas ou por uma overdose de drogas e/ou bebidas e dor. Uma dor no peito que não tem cura.

Não sei se o que eu vou dizer é certo ou errado. Mas eu acho deus muito sacana. Acho que ele me jogou num picadeiro de circo e fica me observando lá de cima. Sei que a minha mãe reza muito por mim. Ela vai muito na missa, claro que pra pedir salvação para o seu único filho e fazer penitência para que eu me recupere. Já joguei na cara dela que isso é impossível. Jamais vai acontecer porque esse deus para quem ela reza, não existe.

Se existisse, eu repito que seria um sacana. Por que criar gente como eu e gente como os outros, os normais? Por que diferenciar os seres humanos dando somente alegrias para uns e tuneis escuros para outros? Definitivamente, seria uma injustiça muito grande. Então prefiro que esse deus da minha mãe e da minha avó não exista. Melhor ser da forma que acho que deveria ser. Sem deus. Só um mundo criado por acaso após uma enorme explosão que caminha para uma outra explosão. E é claro que eu não estarei aqui para ver.

Não tendo deus, não terá céu. Nesse ponto, eu gostaria que existisse um céu pra minha mãe ir depois de morta. Sei lá, apesar dos gritos e das nossas brigas, ela chora muito mais do que sorri. Acho que ela merece o céu. A minha madrasta, não. Essa deveria queimar no inferno dentro de uma poça de álcool. Ops, álcool não, seria um desperdício. De gasolina aditivada.

Finalmente, depois de um tempo vagaroso, me vejo acordado. Tem horas que a minha mãe saiu e eu me levantei e fiz um sanduiche. Mal ficou no estômago e já pus tudo pra fora. Sinto falta de quando eu sentia o gosto da comida, de quando a minha avó fazia bolo de fubá de tarde e eu achava delicioso com café quentinho.

O tempo foi passando e os bolos da minha avó foram ficando sem gosto, assim como os domingos no cinema com a minha mãe, o vídeo game com os filhos dos vizinhos. No início, eu ainda gostava de jogar com eles, mas, depois, conforme eu fui crescendo, jogar passou a ser esquisito… trabalhoso. Não consigo mais jogar, também não consigo mais ler e nem aprender nada.

Esse é mais um motivo pelo qual desisti de ir para o colégio. Não consigo me concentrar e quando isso acontece, preciso sair da sala correndo.  Às vezes, fumava maconha pra diminuir a angústia, aí me acalmava um pouco. Mas nem sempre tinha da erva disponível, aí eu ficava apenas no cigarro mesmo. Fora da escola é muito melhor,  tem sempre um chegado na rua que me dá um gole e um cigarro, às vezes, dependendo, muitos goles e muitos cigarros.

Mas é uma troca. Quando eu tenho, também divido, pois sei que é horrível quando bate o pico do vazio – a pior sensação que existe – e não tem nada pra ajudar a esquecer. Nós, os desafortunados da felicidade, que vivemos no submundo do buraco escuro, precisamos nos ajudar uns aos outros. Não precisa o outro nem pedir, muito menos oferecer algo em troca. Pelo olhar, a gente sabe que o outro tá precisado e age. Divide o álcool, a cola, o loló, tudo, até o crack. Este último, eu evito ao máximo um dia ter que usar porque sei que é brabo. É antecipar de vez o fim, pelo menos pra uns que já ouvi falar… mas cada caso é um caso, tem gente que consegue sair.

Às vezes, sem mais nem menos um chegado desaparece do esconderijo que a gente usa. Às vezes é porque morreu, às vezes é porque algum parente conseguiu arrastar pra uma clínica. Depois de algum tempo, alguns voltam, outros não.

 

… continua…

 

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