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Sobre comer ovos moles vestido no pijama rasgado

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Ser perfeito e fazer tudo certo. Falar o que as pessoas querem ouvir, mostrar as imagens que todos gostam de ver para não perder seguidores, fazer coisas só porque todo mundo faz. Esqueça! Isso vai acabar com o seu emocional. Dentro de alguns anos você irá se sentir um lixo porque não terá onde se sustentar. É preciso ter uma base, um pensamento forte por trás daquilo que você acredita, uma coisa que você gosta muito e que se dedica porque realmente gosta e não porque os outros aprovam, caso contrário, puf! Tudo irá desaparecer instantaneamente e você ficará sem chão.

Você terá sucumbido ao que o mundo exige. E as exigências são muitas. Você vai à academia, malha (ou melhor) treina todos os dias em busca do corpo perfeito. Mas isso não basta.  Você tem que vestir a roupa certa e é preciso que o seu guarda roupa tenha quilos e quilos de roupas certas, que todo mundo aprova.

Você tem que ser o melhor no trabalho, o imbatível, que sempre tem ótimas ideias e apontamentos, caso contrário, é posto de lado e não terá nenhuma chance de apresentar seus projetos e crescer na empresa algum dia. Se você come errado, se torna também basicamente um criminoso porque comer errado hoje em dia é um verdadeiro crime. Todo mundo posta o que come nas redes sociais, e você não vai postar aquele hambúrguer gigante com fritas que adora sob pena de ser execrado publicamente.

As pessoas são lindas, inteligentes e perfeitas. E nós, simples mortais, sofremos porque muitas vezes não conseguimos alcançar esse mesmo patamar. O patamar da perfeição absoluta. Verdade? Mentira! Ninguém é perfeito, só tenta mostrar que sim.

Esquecendo as selfs e os posts bacanas, é generalizada e crescente a ideia do fazer mais e melhor. Não se para mais pra respirar, não dá tempo. Quem antigamente fazia a graduação, começava a trabalhar primeiro e só depois partia para uma especialização e depois, oxalá um mestrado, quase nunca um doutorado. Aprendia trabalhando, na vivência do dia a dia.

Agora a ideia é correr sempre atrás de uma formação exemplar. Temos que ser simplesmente doutores em tudo. Antes mesmo de aprender na prática, a gente tem que provar que é o melhor naquilo que ainda não tem maturidade para saber se realmente gosta. Aí vem a frustração devido ao tempo e dinheiro que gastamos. É tempo não pensado, desperdiçado, pois fazer o que não se gosta durante os mais de 40 anos de trabalho que teremos pela frente será um verdadeiro martírio.

Correr, aliás, é o que a gente tem que fazer para o tempo render. São mil compromissos e obrigações, com a casa, que tem que estar linda e bem decorada e com os amigos e parentes, que tem que vir conhecer a casa e achar tudo lindo e perfeito, tipo capa de revista. Até mesmo o pet tem que ser bonito e cheiroso, senão não se enquadra no padrão dos pets risonhos que parecem não fazer cocô no tapete cada vez que ficam sozinhos.

E o seu tempo para não fazer nada? Comer manga no pé lambuzando a cara, coçar as feridas da alergia, sair da dieta com uma panela de brigadeiro, ficar 24 horas sem escovar os dentes, desligar os eletrônicos e se enfiar numa série de uma só vez. Qualquer coisa que você goste e que não tem ninguém olhando. Temos tido esse tempo? Olha que ele é essencial, pois é esse tempinho livre, onde somos nós mesmos, que nos recarrega as energias para seguir sempre em frente. É preciso de vez em quando desligar o celular, esquecer as selfies, os pratos bonitos, e os beijinhos forçados. É preciso comer arroz com ovos moles vestidos com o pijama rasgado de vez em quando e deixar o telefone tocar sozinho, ignorar o face, o insta e todos os outros big brothers da vida, caso contrário, puf! A vitrine se quebra com tudo o que há lá dentro: nós mesmos. E depois fica muito difícil juntar os pedacinhos.

#LecaHaine

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