Crônica do dia (reedição) : Princesas e bruxas

garota
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Era uma menina calada e sem graça. Magrinha de dar pena, com suas perninhas finas para lá e para cá. Os olhinhos perspicazes procuravam ouvir tudo o que podia e, a partir dali, criar lindas histórias. Às vezes de fada e de príncipe, às vezes de floresta negra ou de bruxa. Particularmente, ela gostava de todas, às vezes de uma, às vezes de outra.

Era dócil, fácil de conviver, desde que não se tentasse conhecer suas histórias criadas para sobreviver ao mundão de meu Deus. Será que ela tinha ciúmes de suas personagens? Que as pessoas soubessem o que lhe ia n’alma? Ou, simplesmente, que se apoderassem do que era só seu?

Penso que nem mesmo ela saberia explicar o motivo para esse segredo todo. Tanto que ninguém podia perguntar nada a respeito, sequer se o vestido da princesa era verde ou azul, muito menos cor de rosa brilhante, porque dividir detalhes era o mesmo que entregar suas criações a um estranho qualquer.

Na verdade, acho que, para a menina, suas histórias eram como filhos e não se entrega um filho de bandeja. Primeiro, é preciso um motivo muito forte para isso. E foi o que a garotinha fez. Só quando se deu conta que iria perder suas histórias, correu até o primeiro papel que encontrou e começou a desenhar o que lhe ia na cabeça.

Uma a uma, as princesas e as bruxas foram saindo da mente da garota para os bracinhos finos esticados sobre a mesa e ganhando suas primeiras formas. Depois, a menina ainda tentou esconder os papeis, mas já era tarde. Ela meio que antevia isso, tanto que se recusou a desenhar o máximo que pôde, mas, agora, o jeito era se dedicar à imortalidade de suas criações.

E passou a desenhar dia após dia, a ponto dos papeis saírem armários e prateleiras afora. E também a ponto das outras pessoas pegarem, olharem e ficarem sabendo como era cada uma das suas princesas e seus castelos, seus vestidos e seus príncipes. Depois de muita preocupação, a garotinha finalmente entendeu que se não dividisse suas histórias com o mundo, as perderia para sempre. E viveu em paz com isso.
‪#‎LecaHaine‬

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